ESCOLA DE SAGRES

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Este espaço tem como objetivo divulgar as ideias, projetos, iniciativas do pesquisador e consultor educacional João Malheiro, doutor em educação pela UFRJ e pesquisador do Grupo de Pesquisa sobre Ética na Educação (GPEE-UFRJ)



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As Fontes da Motivação Ética nos Educadores [1]

1. INTRODUÇÃO


Falar sobre a importância de educar eticamente a juventude, seja no ambiente familiar ou escolar, costuma provocar nos educadores, de forma geral, três reações bastante diversas.
Num extremo, uma atitude de medo, de desconfiança. Tende a soar como algo limitador da espontaneidade, como sinônimo de cerceamento da liberdade ou ainda como resquícios de doutrinas passadas já superadas. Portanto, um inimigo perigoso a que é preciso estar atento.
Em uma atitude intermediária, existem pessoas que tendem a enxergar a educação ética como algo neutro, indiferente, ou ainda teórico. Acreditam que para algumas pessoas pode ser importante, mas para outras não. Pensam ainda que seja difícil aplicar na vida concreta do mundo moderno alguns desses princípios éticos e, por isso, caem numa postura mais cética, utilitarista ou despreocupada. A intuição sentimental costuma ser a base de suas escolhas.
Por fim, uma terceira tendência leva a valorizar o aprendizado das virtudes morais como algo não só conveniente, mas necessário para alcançar o fim da educação, que é o desenvolvimento e realização da pessoa humana. Nesta visão da educação ética, a pessoa humana, apesar de possuir uma liberdade individual, não a possui de forma absoluta, mas apenas compartilhada. É um ser relacional, dependente[2]. A fim de se alcançar essa capacidade para o exercício da justiça se exige, desde cedo, um verdadeiro aprendizado das virtudes éticas.
Verifica-se, portanto, que alcançar uma motivação ética[3] na educação depende, em parte, do olhar filosófico do educador e de como esse olhar penetra na pessoa humana. Alasdair MacIntyre, no seu livro Depois da virtude[4] nos mostra que esta fragmentação ética, como evidenciamos acima, com as diversas posturas, tem sua explicação em raízes históricas-filosóficas.
Segundo o autor, se nos dispomos a examinar o que está acontecendo na sociedade atual, perceberemos um reflexo de uma série de filosofias de pensamento e de vida, oriundas no iluminismo Europeu e que chegaram até os nossos dias, que afirmam não ser possível acudir a razões objetivas para justificar os princípios éticos que cada qual deve utilizar nas suas escolhas. Existe como que um acordo implícito de que os princípios são uma questão de preferências pessoais. Pretender outra coisa equivaleria a incorrer num crime de lesa humanidade que é impor uma ética ao vizinho. Quem profere um juízo ético deveria usar uma linguagem pretendidamente impessoal e deveria ocultar suas pessoais motivações. “Tal coisa é eticamente má” significaria, na prática, “não quero que faças tal coisa, porque não me agrada”. Portanto, esta corrente, chamada pelo autor de emotivista, postula que não existem critérios universais que sirvam para dirimir entre posturas éticas rivais. Todas elas seriam igualmente dignas e admissíveis.
Se aprofundarmos nas consequências práticas desta corrente ética, perceberemos que tem se comprovado ser uma postura um pouco perigosa, porque são muitas vezes difíceis arbitrar posturas diferentes, encontrar os limites de quem está com a razão e no final acaba-se alimentando na sociedade, parafraseando o autor escocês, uma “guerra civil sem armas”, na qual ganhará o que for mais forte e tiver mais poder. Uma teoria ética que provoca a injustiça social não parece, portanto, ser a mais adequada. É preciso buscar algo mais isento e transcendente, que dê luz a duas vontades opostas ou diferentes para viverem em paz.
MacIntyre, nessa mesma obra, questiona o por quê da sociedade atual pensar assim da ética. Ele é da visão que ela acredita que a tentativa, passada ou presente, de prover de justificação racional a moral objetiva fracassou de fato. Que não é mais possível encontrar racionalmente aqueles valores éticos que sejam comuns e universais para todo o ser humano.
Perguntemo-nos: será que essas pessoas já questionaram qual foi a razão desse fracasso?
Uma primeira resposta que penso justificar o fracaso da moral objetiva foi a perda — ou a anulação propositada por alguns pensadores — dos conceitos metafísicos de natureza humana e de seu telos (fim), conforme a perspectiva Aristótelica.
Aristóteles, principalmente no seu livro Ética a Nicômaco[5], apontava que os seres humanos, bem como os membros de todas as outras espécies, têm uma natureza específica. Essa natureza humana é que os leva a terem certos objetivos e metas, de modo que se movimentem em direção a um telos (fim) específico. Tal fim, para o filósofo, não poderia ser nunca o dinheiro, honra ou prazer, mas sim a eudaimonia, que poderia ser traduzida como felicidade ou Bem Supremo. Na obra citada, Aristóteles esclarece que:

Parece que a felicidade, mais que qualquer outro bem, é tida como este bem supremo, pois a escolhemos sempre por si mesma, e nunca por causa de algo mais; as honrarias, o prazer, a inteligência e todas as formas de excelência, embora as escolhamos por si mesmas, escolhemo-las por causa da felicidade, pensando que através delas seremos felizes. Ao contrário, ninguém escolhe a felicidade por causa das várias formas de excelência, nem, de um modo geral, por qualquer outra coisa além dela mesma (Aristóteles, 2001, p.23).


Para Aristóteles as virtudes eram precisamente as qualidades cuja prática permitiriam o indivíduo atingir a eudaimonia e cuja falta o levaria a experimentar a frustração desta natureza que anseia por felicidade.
Mas voltemos à questão: por que ocorreu essa perda ou anulação da natureza humana e a diminuição da motivação ética das virtudes em grande parte da sociedade? É possível apontar várias razões filosóficas, religiosas e morais, que se misturam e se entrelaçam entre si.
Em primeiro lugar, o necessário esforço exigente para alcançar esse Bem sempre rebelou um pouco o orgulho humano. O sofrimento sempre trouxe sua dose de mistério, de perplexidade e de medo. Portanto, segundo esses pensadores, se essa era a nossa condição para sermos felizes, era melhor autonegar a própria natureza humana[6] e arriscar escolher uma outra natureza, que eu chamaria não-humana e, portanto, mais animal e irracional. Desprezando-se a natureza humana, anulou-se a verdade objetiva, própria da natureza, que nos inclina a essa felicidade.
Outra razão, está ligada à eterna busca do homem por uma liberdade absoluta e, portanto, também não humana. A liberdade própria da natureza humana está condicionada por uma relação de dependência. A pessoa humana é não apenas racional, mas também relacional. É comunhão (a pessoa com os outros) e doação (a pessoa para os outros). Assim qualquer ser humano vem a este mundo: é necessário pertencer a outro ser (estar com) para nascer e se desenvolver, e exige que esse outro ser se doe a ele (estar para) e o aceite. A essência da pessoa é tal que o homem sozinho não pode realizar totalmente a sua essência. Realiza-se somente se existe com e, principalmente, para alguém, pois somente assim a espécie humana se perpetua. Esta dependência sempre rebelou também o ser humano e muitos, ao não aceitá-la, preferiram também negá-la. Esta contradição é manifesta em vários pensadores existencialistas, em suas obras.
Voltando à nossa questão, do fracasso da ética objetiva, diria que uma segunda resposta nasce e é consequência da primeira. Quando o esforço ético da vivência objetiva das virtudes morais foi desvinculado do seu telos humano, a ciência das virtudes morais foi desfigurada como mera exigência sem sentido. Vários filósofos culparam-na da origem de traumas, repressões e ausência de liberdade. A ética kantiana[7] do “dever pelo dever”, sem a meta de alcançar a liberdade e a felicidade, favoreceu essa doutrina. Tanto a filosofia nietzschiana[8] exigindo liberdade, quanto a teoria Freudiana[9], que influencia até hoje a educação, reivindincando prazer, foram também alguns desses denunciadores. O fato é que o distanciamento da filosofia aristotélica ao longo dos séculos por essas filosofias foi tornando a educação das virtudes, ao invés de algo libertador, algo odioso, inumano e doentio.
Fica fácil observarmos, portanto, que o fracasso da ética objetiva foi real, mas por culpa do próprio homem em não querer aceitar a sua própria natureza. Mas reflitamos com a perspectiva do tempo: foi melhor essa escolha para o homem? As desordens sociais do século XX e do atual parecem sugerir que não. A somatória crescente em nossa sociedade de pessoas depressivas, solitárias, violentas, injustas, sem motivação para viver e existir prova que algumas escolhas filosóficas acontecidas no passado estão comprometendo a realização do ser humano atual. Tudo indica que a sociedade não ficou mais feliz negando a própria natureza humana. A evidência de que todo o ser humano fica ansioso e inseguro até encontrar-se como ser humano livre e responsável da sua felicidade, parece demonstrar que, por mais que o homem possa autonegar a própria natureza, só se sentirá feliz e em paz quando entender que, apesar do esforço, vale mais a pena autoafirma-la do que viver como um triste animal irracional.
Diante destas ideias introdutórias, gostaria de propor neste artigo, não só o resgate dos conceitos de natureza humana, de seu fim (telos) e de virtude, como caminho para olhar o homem corretamente, mas também averiguar se a redescoberta do funcionamento adequado das potências humanas, para muitos educadores desconhecidas, poderá provocar a verdadeira motivação ética na educação. Gostaria de levantar a hipótese de que parece existir uma relação real entre enxergar a pessoa na sua totalidade, composta por razão, vontade e afetividade, potências humanas passiveis de educação, com a motivação ética dos educadores.

2. A EDUCAÇÃO DA AFETIVIDADE


Segundo Aristóteles (2001), existem dois tipos de virtudes: as virtudes intelectuais, ou do pensamento, e as morais, ou do caráter. Aquelas poderiam ser divididas em dois grupos: o primeiro compreende as virtudes mais especulativas (razão teórica ou abstrata), das quais fazem parte a Sophia (sabedoria) e a Ciência. Estas virtudes são também conhecidas como competências intelectuais incluindo o conhecimento científico relevante; o outro grupo abrange as virtudes mais práticas (razão prática), incluindo a prudência, cuja função principal é a capacidade de discernimento do Bem e a técnica ou um bom senso prático, fruto da experiência. Dentro do segundo tipo de virtudes, Aristóteles indica as virtudes do caráter ou morais que são novamente a prudência, além da justiça, fortaleza e temperança, as quais se desenvolvem por meio de hábitos operativos bons, fruto da educação teórica e prática da virtude.
Vejamos abaixo um resumo para melhor entendimento:




Figura 1 MAPA DAS VIRTUDES EM ARISTÓTELES Fonte: João Malheiro

Aristóteles afirmava que a natureza humana —o modo de ser próprio do ser humano— e suas três potências têm um funcionamento débil, isto é, suscetível de erro, devido a uma tendência exagerada do ser humano para a subjetividade. Segundo o autor, esta natureza humana é um princípio ou mola propulsora das operações próprias do ser humano (conhecer e querer, com o sentir de permeio) que o inclina —mas não indefectivelmente— a possuir o bem supremo e, por conseguinte, alcançar a felicidade. Por isso, para conseguir caminhar mais facilmente rumo à felicidade, o homem precisa das virtudes morais.
Segundo Aristóteles (2001), as virtudes morais ou cardeais (chamam-se “cardeais” porque a palavra “cardeal”, em latim —cardo–, significa eixo, no qual girariam então todas as demais virtudes) aperfeiçoam o exercício das potências do ser humano: inteligência, vontade e a afetividade. Sabendo que estas potências se encontram no ser humano num estado de dependência e complementaridade e são aperfeiçoadas pelas virtudes cardeais, estes hábitos não poderiam ser vistos separadamente, não poderiam ser praticados isoladamente, mas somente em uma mútua dependência. As virtudes morais encontram-se internamente conectadas, de maneira que, se o indivíduo não tem algo das quatro, não pode possuir alguma delas completamente. Se um jovem não tem a virtude da temperança, não poderá dizer que alcançará a virtude da fortaleza ou da justiça com perfeição. Portanto, as virtudes são adquiridas, ao mesmo tempo e indissociavelmente, como vasos comunicantes, mediante a repetição reiterada dos atos próprios de cada virtude e da reflexão acerca da bondade intrínseca que os atos virtuosos produzem, aperfeiçoando a natureza humana.
Como podemos observar na Figura 1, as virtudes morais, apesar de estarem interligadas, nascem e são desenvolvidas em uma específica potência humana.
A virtude da prudência, definida por Aristóteles como a reta razão do agir, emerge da razão prática, que é iluminada pela razão abstrata, origem dos primeiros princípios universais. Conforme podemos verificar no esquema acima, esta virtude é desenvolvida tanto nessa razão prática —portanto uma virtude intelectual— fazendo com que a potência intelectitiva lhe apeteça conhecer a verdade, mas também indica a medida correta para as demais virtudes morais, e, por isso, é também chamada de virtude moral. Conforme já apontamos anteriormente, Millán-Puelles define a prudência —phrónesis— como a virtude que tem a função de aplicar princípios morais absolutos, imutáveis, incondicionados a circunstâncias variáveis. Estas, ao variarem, a prudência indicaria a forma de variar a sua aplicação (Millán-Puelles, 1996).
Vem a propósito o que Maritain (1959) sobressai quando afirma que:

É principalmente através da instrumentalidade da inteligência e da verdade que a escola pode influir no desejo, na vontade e no amor dos jovens, ajudando-os a controlar seu dinamismo inato. A educação moral desempenha um papel importante na escola. E esse papel deve ser cada vez mais estimado. Mas é, essencialmente e, sobretudo, mediante a aprendizagem e o ensino, que a educação escolar realiza sua função moral. Não pode exercitar e dar retidão à vontade, nem, simplesmente, por ilustrar e dar retidão à razão prática. O esquecimento das diferenças entre vontade e razão prática explica o fracasso da pedagogia escolar, ao pretender “educar a vontade”. (Maritain, 1959, p. 51, grifo meu)


Fica evidenciado, nas palavras de Maritain, que a educação das virtudes morais é importante para se alcançar o equilíbrio e a harmonia das potências do homem. Mas, segundo o autor, o aprendizado dessas virtudes é mais importante ainda na exigência escolar, porque inicialmente alimenta a razão abstrata, esta depois fortalece a razão prática para, em seguida, esta última orientar bem a vontade a querer o Bem. Um fortalecimento da vontade separado da razão abstrata e prática se cai em um voluntarismo e pragmatismo desaconselhado para a educação dos estudantes, pois esse voluntarismo é mais alimentado pelas paixões, que são irracionais, do que pela vontade. Por isso, um verdadeiro aprendizado ético das virtudes deve ser realizado através do ensino/aprendizagem e não somente como algo teórico, distante da prática escolar. Deve ser incentivado na prática do quotidiano que, como também apontavam Aristóteles (2001), MacIntyre (2001), e lá que se forjarão as virtudes.
Diante do papel da razão abstrata e da razão prática na formação completa do ser humano, fica evidenciado que, quando o educador conhece estes mecanismos antropológicos, necessariamente fica motivado a desenvolver no aluno não apenas a formação da sua razão abstrata, através do conteúdo específico da sua disciplina, mas também a formação da sua razão prática, por meio das virtudes morais. Ambas alimentam, portanto, a motivação ética dos educadores.
Infelizmente, hoje em dia, diante deste desconhecimento antropológico na maioria dos pais, professores, dirigentes educacionais, os alunos são apenas estimulados a desenvolver sua razão abstrata, muitas vezes de forma superficial, e não a razão prática, pela ausência completa do aprendizado das virtudes morais. Isto pode trazer consequências nocivas para eles, porque ao permitir que a sua afetividade fique descontrolada e sem o devido direcionamento para os outros — para isto existe a educação da afetividade[10]— toda a sua formação escolar tenderá a ficar motivada apenas para satisfazer ideais egoístas e a não buscar o bem comum. Por outro lado, se o aluno desde cedo vai aprendendo a se educar nas virtudes que moderam a afetividade[11] — a temperança e a fortaleza — então será mais fácil que veja nessas conquistas educacionais formas de serviço e de preocupação social. Inclusive, para aqueles que obtêm resultados de maior destaque, poderão mais facilmente diminuir essas tendências. Para aqueles que têm maiores dificuldades, muitas vezes por disporem de poucos recursos educacionais, seja a nível familiar, seja a nível governamental, poderão dessa forma desenvolver uma maior motivação transcendental[12], superando essas dificuldades.
Apresentamos, na figura abaixo, em forma de esquema, o que dissemos acima.



Figura 2 — O papel da razão prática como fonte da força de vontade e da capacidade de justiça, solidariedade, cidadania, altruismo. Fonte: João Malheiro


3. COMO SE DESENVOLVE A RAZÃO PRÁTICA

Parece evidente, tende em vista a importância da razão prática na educação do jovem, que reflitamos, em seguida, como ela deve ser formada adequadamente. Para isso, se torna necessário aprofundar nos aspectos afetivos do homem, formado pelas emoções, paixões e sentimentos.
Na definição de Tomás de Aquino (1955) as emoções e paixões —para ele não havia grandes diferenciações entre ambos— são movimentos da parte apetitiva inferior do homem, chamado apetite sensitivo. Assim, diante da presença de determinado objeto sensível ao sujeito, como, por exemplo, enfrentar-se com um leão numa floresta, a pessoa, por meio de seu apetite, tende a consegui-lo ou a evitá-lo, conforme o mesmo seja apreendido como bom ou mau, isto é, de acordo com que sua razão acredite ser boa ou má. O autor define apetite sensitivo como uma inclinação da natureza para satisfazer uma necessidade que lhe exige. Segundo Tomás de Aquino, “a paixão é movimento do apetite sensitivo. É um movimento irracional da alma na presença de um bem ou de um mal”.[13] Pela diferenciação na apreensão de seu objeto, dois apetites distintos são acionados nos seres humanos, chamados por Aristóteles (2001) de apetite concupiscível e irascível.
Aquino (1955) os diferencia apontando que

O irascível e o concupiscível são duas potências que dividem o apetite sensitivo. O objeto da potência concupiscível é o bem ou mal sensível tomado como um bem absoluto, enquanto é deleitável ou doloroso. Mas, como é inevitável que a alma experimente às vezes dificuldade ou contrariedade na aquisição desses bens ou em afastar-se desses males sensíveis, a presença da potencia irascível facilita essa busca ou fuga (Aquino, 1955, S. Th., 1-2, q. 26, a 1).


Roqueñi (2005) procura identificar o processo temporal do movimento afetivo no desenvolvimento evolutivo da pessoa. Ele ressalta que:
Conforme a já usual divisão psicológica dos estágios do desenvolvimento humano, nos primeiros três estágios (primeira infância: até os seis anos de idade; segunda infância: até os doze; adolescência inicial: até os quinze), se apresenta a preponderância de operações das potências afetivas. Neste sentido, se estabelece que do nascimento até os sete anos de idade, na criança se opera principalmente a potência concupiscível. Dos sete aos quatorze preponderantemente atua a potencia irascível na atividade do adolescente. (Roqueñi, 2005, p. 50)
Roqueñi (2005) afirma que, sem querer dogmatizar essas fases, é importante aclarar que se fala somente de predomínio da potência, isto é, não há exclusão nem de outra potência afetiva e nem, muito menos, da inteligência e da vontade. Aponta ainda que, apesar de resultar muito complexo estabelecer fronteiras entre as operações das faculdades humanas dentro de ato específico do indivíduo, é possível distinguir certos intervalos temporais nos quais os primeiros princípios de determinadas operações se manifestam, tendo em vista principalmente o desenvolvimento mental da criança (Piaget,1975), mesmo não sendo muito precisos esses limites.
Entrando agora mais especificamente no modo como as virtudes se desenvolvem a partir dos primeiros anos e como elas se relacionam com a razão prática, Aquino (1955) afirma que o apetite (ou potência) concupiscível move o homem ao bem sensível como um bem absoluto. Por isso, é próprio dos afetos infantis, predominantes na criança entre 1 e 7 anos de idade, a absolutização do mais imediato. Nessas idades, suas tendências emocionais em geral se movem apenas de forma simples e contínua, sem conseguir transcender a outros estados emocionais mediatos ou futuros, pois o sujeito é incapaz de percebê-los pela ausência do raciocínio e pelo pouco desenvolvimento da capacidade imaginativa para perceber ações ou valores futuros. Tendo isto em vista, resulta claro ser um despropósito, por exemplo, propor a uma criança um bem difícil futuro, pois a mesma é incapaz de percebê-lo, motivo pelo qual abandona ou se cansa rapidamente de jogos mais complicados. Na medida em que se desenvolve, poderá imaginar objetos mais intrincados e planejar ações mais dificultosas — por exemplo, a ação de subir numa árvore para pegar uma fruta saborosa–, mas como ainda não pode enfrentar o temível —pela ausência da potência irascível— se entristece e desiste. Passa velozmente, da paixão de amor ao desejo e deste ao deleite e gozo. Quando não consegue o que quer, também com rapidez, passa do ódio à aversão e desta à tristeza. Como ainda não tem a razão prática suficientemente desenvolvida, a ação educativa em prol dos hábitos de temperança é decisiva, pois os educadores podem substituir a fraca disposição da criança.
Com a aparição do apetite irascível, “em torno dos sete anos” (ROQUEÑI, 2005, p. 56), sem que deixe de atuar o apetite concupiscível, a criança manifesta diferentes mudanças que se refletem em sua conduta global. O amor-paixão, que nasce na fase anterior, começa a dar prioridade a um novo amor, chamado amor racional, se existe uma adequada educação afetiva. Vejamos como se dá este processo.
Na fase anterior, o amor-paixão, definido como “uma paixão imutável do apetite pelo objeto apetecível” (ROQUEÑI, 2005, p. 43), na fase concupiscível, move a vontade a desejar as coisas, sem chegar ainda à razão prática. O amor sensível consegue muitas vezes que a vontade ame algo sem muito conhecimento racional. Com um processo educativo atento, na fase seguinte — fase irascível —, depois da repetição de atos mais ou menos deliberados, o jovem deve ir sendo ajudado a ir forjando por meio dos hábitos bons como que uma segunda natureza (Aristóteles, 2001), subjetiva e individual. Tomás de Aquino (1955), explicando melhor este processo, esclarece que as paixões dependem da razão e da vontade para ordená-las para uma ação boa. Depois que elas realizam isto no jovem, após toda a boa operação se segue uma boa concupiscência e um bom deleite, próprio da bondade intrínseca das ações boas. Consequentemente, cada vez que se impressa determinado amor sensível na sua subjetividade, através da potência cogitativa (a potência que distingue as percepções sensoriais), a inclinação do apetite o faz desejá-lo mais e gozar cada vez mais quando o possui. É então que começa a nascer o apetite racional da razão prática e a orientação da afetividade do sujeito, e a vontade começa a exercer seu império sobre o mundo afetivo. Se uma pessoa sente desagrado ao mentir e satisfação quando é sincero isso será de uma grande ajuda em sua vida moral. Igualmente, se sente tristeza quando é desleal ou egoísta ou preguiçoso terá às vezes mais forças para superar as tentações do mal que se apresentam quase sempre com argumentos falaciosos. Se um jovem é bem educado em valorizar a conquista das virtudes que deseja adquirir e procura ter presente essa ideia na memória e na imaginação será muito mais fácil que chegue a possuí-las. Pelo contrário, se pensa constantemente no atrativo dos vícios que deveria evitar (um atrativo pobre e enganoso, mas que sempre existe e cuja força não deve ser desprezada) o mais provável é que o inegável encanto que sempre têm os erros lhe faça mais difícil se desprender deles.
É importante, nesta fase que o apetite racional vai emergindo da razão prática, que os educadores auxiliem os educandos a perceber que a alegria que nasceu neles foi fruto de um amor mais profundo ao próximo — não mentir X ser sincero, desleal X leal, preguiçoso X serviçal — e que este amor ao outro será fonte de fortaleza, de motivação, de maior constância para perseverar nas metas e objetivos da vida. Que é necessário haver um amor transcendente para se ter força de vontade, pois só existindo esse amor será possível suplantar o subjetivismo egoísta que todo o ser humano carrega consigo.
Aos poucos, com o passar do tempo, o jovem irá amadurecendo neste amor racional e conseguirá ir superando os amores emotivos, sempre mais superficiais e efêmeros. Estes avanços na virtude o levarão a identificar a virtude com a conquista da verdadeira liberdade e felicidade, e comprovarão as promessas aristotélicas.

4. CONCLUSÃO


Pesquisas recentes têm demonstrado a existência de motivação ética por parte de alguns professores do ensino básico[14], porém elas também têm detectado que essa motivação muitas vezes é superficial e inconsistente.
Procuramos mostrar neste artigo, que essa motivação pode ser fortalecida caso os professores olhem mais profundamente para os seus alunos. Referimo-nos a possíveis deficiências filosóficas/antropológicas emergidas, nos últimos anos, na educação. Parece-nos que os desvios podem ter tornado o olhar incompleto ou até errado nos educadores, privilegiando mais os aspectos intelectivos da pessoa humana do que os volitivos e afetivos. Fomos vendo como esta desordem educacional potencializou mais a razão abstrata, aquela que favorece a aquisição do conhecimento, da ciência, da sabedoria, e empobreceu o desenvolvimento da razão prática, na perspectiva de Tomás de Aquino. Segundo o filósofo, esta razão prática tem a função de orientar a afetividade e fortalecer a vontade do ser humano para alcançar uma maior realização existencial. Para que isto aconteça, é necessário também o ensino-aprendizagem da ciência das virtudes éticas, que se deve dar primordialmente na família, mas, depois, também na escola, em profunda sintonia. Este aprendizado da ciência ética deve ser iniciado desde o começo da vida escolar, principalmente com o exercício das virtudes da temperança e da fortaleza, que têm a função de moderar e potencializar, respectivamente, os apetites afetivos da concupiscência e da irascibilidade. Estas virtudes podem ser estimuladas, primeiro, com a própria exigência escolar, pois o conteúdo específico de cada disciplina tem, entre outras funções, o papel de iluminar a razão prática para que favoreça a virtude da prudência a refletir, ponderar e decidir numa escolha conveniente. E, em seguida, na própria vivência escolar, promovendo inúmeras ações educativas de ordem material e social no ambiente.
Concluímos, portanto, que se os professores olharem para a totalidade dos seus alunos, vislumbrando um desenvolvimento harmônico de todas as suas potencialidades racionais, volitivas e afetivas, durante o processo de ensino/aprendizagem, privilegiando não só o crescimento da razão abstrata com um conteúdo exigente, mas também, em paralelo, o progresso da razão prática, ficarão mais profundamente motivados a ensinar a ética das virtudes, primeiro com o próprio exemplo na vida pessoal e escolar, e depois, com o ensino teórico e prático. Sentir-se-ão motivados porque perceberão que sua missão de educadores consistirá muito mais que uma mera passagem de conteúdos específicos. Reconhecerão que a função de um educador é antes de tudo um formador de uma pessoa humana única e insubstituível, que é seu aluno. Este só conseguirá descobrir o sentido da sua vida se for auxiliado a deslumbrar que existe para os outros. A necessidade de transcendência só será satisfeita quando aprender e viver o dinamismo próprio das virtudes éticas e a suplantar uma subjetividade egoísta.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


AQUINO, T. Suma Teológica, Madrid: Editora BAC,1955
ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Trad. Mário da Gama Kury. 4 ed. Brasília: Editora da UNB, 2001.
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FREUD, S. O Ego e o Id. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XIX. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Imago, (1923), pp. 23-76, 1976.
KANT, I Fondements de la Métaphysique des Moeurs, Paris, Delagrave, 1950.
LINS, M.J.S.C., MALHEIRO, J. et al. Avaliação da aprendizagem da Ética na formação de professores de Ensino Fundamental. Ensaio: Avaliação e Políticas Públicas em Educação. Rio de Janeiro. V.15, nº 55, pg.255-276, 2007a.
MACINTYRE, A. Depois da Virtude. Tradução de Jussara Simões, Bauru (SP): EDUSC, 2001, After Virtue— A study in Moral Theory — 2nd Edition — University of Notre Dame Press — Indiana, 1984.
___________. Dependent Rational Animals: Why Human Beings Need the Virtues, The Paul Carus Lectures — 20 — 2nd printing. Illinois: Open Court Ed., 1999.
MALHEIRO DE OLIVEIRA, J. A Motivação Ética no Processo de Ensino/Aprendizagem na Formação de Professores do Ensino Fundamental. Tese de doutorado, UFRJ, Rio de Janeiro, 2008.
MARITAIN, J. Rumos da Educação. São Paulo: Editora Agir, 5a. Edição, 1959.
MILLÁN-PUELLES La Libre afirmation de nuestro ser. Madrid: Ediciones Rialp, 1994.
PIAGET, J. L’Équilibration des Structures cognitives-Problème central du développement. Paris: PUF, 1975.
ROQUEÑI, J.M. Educación de la Afectividad: Una propuesta desde el Pensamiento de Tomás de Aquino. España: Editora EUNSA, 2005.


[1] Publicado no Livro Ética e Educação. Editora CRV. 2009, pg.71-85.
[2] MACINTYRE. Dependent Rational Animals: Why Human Beings Need the Virtues, The Paul Carus Lectures — 20 — 2nd printing. Illinois: Open Court Ed., 1999.
[3] MALHEIRO DE OLIVEIRA, J. A Motivação Ética no Processo de Ensino/Aprendizagem na Formação de Professores do Ensino Fundamental. Tese de doutorado, UFRJ, Rio de Janeiro, 2008.
[4] MACINTYRE, A. Depois da Virtude. Tradução de Jussara Simões, Bauru (SP): EDUSC, 2001, After Virtue — A study in Moral Theory, 2nd Edition, University of Notre Dame Press, Indiana, 1984
[5] ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Trad. Mário da Gama Kury. 4 ed. Brasília: Editora da UNB, 2001.
[6] MILLÁN-PUELLES La Libre afirmation de nuestro ser. Madrid: Ediciones Rialp, 1994.
[7] KANT, I Fondements de la Métaphysique des Moeurs, Paris, Delagrave, 1950.
[8] NIETZSCHE, F.W. A Gaia Ciência. São Paulo.Editora Abril, 1983a.
[9] FREUD, S. O Ego e o Id. In: Edição Standard das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XIX. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Imago, (1923), pp. 23-76, 1976.
[10] CINTRA, L.F. O Sentimentalismo. São Paulo: Ed. Quadrante, 1994.
[11] ROQUEÑI, J.M. Educación de la Afectividad: Una propuesta desde el Pensamiento de Tomás de Aquino. España: Editora EUNSA, 2005
[12] MALHEIRO DE OLIVEIRA, J. A Motivação Ética no Processo de Ensino/Aprendizagem na Formação de Professores do Ensino Fundamental. Tese de doutorado, UFRJ, Rio de Janeiro, 2008
[13] S. Th., 1-2, q. 22, a. 3
[14] MALHEIRO DE OLIVEIRA, J. A Motivação Ética no Processo de Ensino/Aprendizagem na Formação de Professores do Ensino Fundamental. Tese de doutorado, UFRJ, Rio de Janeiro, 2008.


Como Escolher a Escola para os nossos Filhos


Entrevista concedida ao BLOG Negócios de Família
(www.negociosdefamília.com,br)
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1 - Que tipo de escola é ideal para uma criança?

A escola ideal para uma criança é aquela que saiba conjugar duas forças complementares: 
as características temperamentais, psicológicas e físicas da criança com o ideal de educação que a família pretende dar para ela. Não é conveniente colocar uma criança num colégio forte, exigente, que cobra bastante, que estimula a competição se ela é muito ansiosa, preocupada com a sua imagem, tem dificuldades em assimilar habitualmente os conteúdos, não gosta de estudar, etc. Essa criança poderá sofrer um stress precoce — que lhe fará muito mal — e aumentar muito a sua baixa estima. Muitas vezes a baixa estima — fato muito comum nas crianças atuais — nasce dos pais colocarem altas expectativas nos sucessos escolares do seu filho e ele não ser dos mais capacitados. É melhor, para estes casos, buscar uma escola que, devendo ser também exigente, não prima tanto pela competição escolar. O segundo aspecto é procurar aquele estabelecimento de ensino que sintonize com os valores da família. A pior coisa do mundo é a criança ser educada num clima de incoerência: ela ficará insegura no início e depois “instintiva” na adolescência. É fundamental para um perfeito desenvolvimento da personalidade da criança que os pais tenham uma base ideológica humana e espiritual que vá se integrando perfeitamente com a escola. Ambas têm que fazer um trabalho conjunto. Caso contrário, pode acontecer, por exemplo, que a família fale para o filho que é muito importante rezar antes de dormir e a escola diga que rezar é “careta”! É muito importante que a família antes de matricular o seu filho numa escola decida se vai querer uma escola religiosa ou leiga, de só de meninos ou mista, com atividades extracurriculares ou não, se bilíngüe ou normal, para depois se preocupar com os demais aspectos internos da escola.

2 - Que tipo de valores e exigências devem ser observados na escolha?

Além de examinar se existe sintonia da escola com os valores da família, que falamos anteriormente, fundamentados em princípios, convicções e regras que a família acredita levarem a uma perfeita realização humana e espiritual, que devem ser definidos em qualquer família que se forma — 
chamado por mim projeto de educação familiar — deve haver a busca por um ensino de qualidade. Cada vez mais, devido aos seus altos custos, o investimento educacional exige um retorno convincente. É mais do que sabido que o sucesso profissional está cada vez mais atrelado às reais competências e habilidades que a criança adquire nos primeiros anos de escolaridade. O mercado competitivo e com cada vez menos empregos, está exigindo pessoas diferentes e com um preparo diferenciado. Por isso, deixar a criança numa escola fraca, onde não exige (e nos exige) um acompanhamento diário dos seus estudos, onde tudo é alegria, esportes, festinhas, teatros, apresentações musicais, enfim, tudo muito lúdico, simplesmente estamos nos enganando e enganando o próprio filho. Mais tarde pagaremos a “conta” por esta ilusão.
Apesar de estar de moda este modelo de educação lúdica, onde o professor deve ser apenas um “orientador”, que somente estimula a criatividade da criança, que não deve haver conteúdos específicos, horários, salas de aula, etc., mas uma grande interdisciplinaridade, eu acredito que os seus frutos já nos podem ajudar a concluir que é preciso ir mais além. 
É preciso conjugar ensino lúdico com exigência, buscando cada vez mais a individualização no ensino-aprendizagem, isto é, buscar a riqueza e a potencialidade individual de cada aluno. Tem uns que podem render mais em certos aspectos que outros, como em matérias de exatas, então há que puxá-los para cima nessas áreas. Existem outros que têm habilidades artísticas: então é preciso dar-lhes oportunidades de mostrarem seus dons e talentos e serem avaliados convenientemente. Mas tudo, sempre com muita exigência, esforço e com alto grau de profissionalismo. A motivação escolar — fator muito preocupante, hoje em dia, em qualquer professor de sala de aula — está muito relacionada com a alta estima que é fomentada, não só por metas e sucessos - muitas vezes não alcançados — mas pelo estímulo no desenvolvimento desses dons e talentos individuais da criança.

3 - A que detalhes os pais devem ficar atentos?

Acredito que a primeira grande preocupação que os pais devem examinar ao escolher uma escola 
é verificar se existe e qual é o seu Projeto Político Pedagógico. Quais são os conteúdos ensinados? Qual é a metodologia empregada? Como é administrada a disciplina dentro e fora de sala? Quais são os métodos de avaliação? Responder a estas questões, procurando saber se de fato é político, isto é, se existe uma participação da comunidade escolar, da família, procurando chegar a alguns consensos em questões opináveis, etc. estaremos com condições de saber se o nosso filho está entrando por caminhos de ensino de qualidade, em todos os seus aspectos. Depois, verificar como é composto e formado — antes, durante e depois — o corpo docente. Infelizmente, muitas vezes, por as escolas terem que reduzir seus custos são obrigadas ou a manter financeiramente professores em patamares pouco motivantes ou então a contratar outros que não apresentam o melhor histórico escolar. Infelizmente, é uma pena que a grande maioria dos pais, nos dias atuais, descarreguem a educação de seus filhos totalmente na escola e não se preocupem em saber quem está “alimentando” ou “envenenando” seus “pimpolhos”… Depois, é importantíssimo que se “capte” o clima organizacional e ambiental da escola. Verificar se as crianças estão felizes, estão soltas, se sentem na sua segunda casa ou se, pelo contrário, existe um clima tenso, desanimado, briguento, desleixado, etc. É muito elucidativo observar os murais de avisos e dos trabalhos, conhecer a biblioteca — tanta na sua quantidade como na sua qualidade — os folhetos e impressos da secretaria, etc., pois a forma como tudo isso é apresentado reflete a “alma” do colégio. Dentro dessas visitas, é preciso se preocupar também com a qualidade e tipo de instalações — número de alunos em sala de aula, se tem área esportiva adequada, computadores modernos, etc. — pois estes detalhes refletem o corpo do colégio. Alma e corpo devem ser sadios! Dois últimos detalhes devem ser considerados, apesar de não serem essenciais: localização da escola, uma vez que o trânsito hoje é um problema sério nas grandes cidades; e o horário de funcionamento. No Rio de janeiro, existe um colégio renomado que, depois de muitos anos, percebeu que oferecer um ensino médio no período da tarde — quando todos os demais da cidade são de manhã — era um fator de desmotivação e de alienação social.

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4 - Quais os prós e contras de uma escola grande ou de uma pequena?

Uma escola grande tem a vantagem de contar com mais recursos financeiros, quando é bem administrada. Se o sucesso de todos os aspectos anteriores sobressaídos dependem bastante de recursos econômicos, é claro que uma escola grande traz mais vantagens. Além do mais, uma escola para se tornar grande exige, normalmente, muito tempo, o que significa experiência, tradição, imagem. No Rio de Janeiro, por exemplo, os melhores colégios em resultados nos vestibulares são quase todos considerados grandes. Por outro lado, uma escola pequena consegue buscar com mais facilidade essa individualização, tanto no aprendizado como na própria avaliação. Outras vantagens, é que fica mais fácil organizar eventos, viagens, visitas culturais, etc., em escolas menores, além de a família poder ter uma maior participação na gestão escolar.
 

5 - Que tipos de informações os pais devem ter sobre o corpo docente?

Além de procurar conhecer muito bem a sua formação, aludida anteriormente — é sempre o mais importante, para que haja aquela sintonia com os valores da família referida no início da entrevista — é importante saber também a sua metodologia. São da linha tradicional? São mais modernos? Sabem exigir ou não? Como “negociam” a disciplina e a avaliação? Estão disponíveis para conversar com os pais? Todas estas questões podem estar em desacordo com a nossa maneira de ver a educação.

6 - Quais são os métodos pedagógicos mais comuns? Como são e quais são seus pontos positivos e desfavoráveis?

Existem os chamados métodos tradicionais 
— também chamados de “cuspe e giz” — onde o professor expõe um conteúdo, aplica exercícios, manda lição para casa de fixação e depois a cobra na aula seguinte e nas provas. E existem os chamados métodos modernos, onde não existe uma autoridade clara e definida do professor, onde os conteúdos não são claramente definidos, mas se procura que o aprendizado seja através de projetos de trabalho, onde a criança, na busca de resolução de problemas, aprenda de forma lúdica. Normalmente, a informática é vista como ferramenta indispensável no aprendizado. As avaliações são mais flexíveis, podendo contar inclusive com a auto-avaliação. Dificilmente, alguém reprova.
Sou da opinião que é necessário chegar a um equilíbrio dialético entre estes dois métodos. Sem dúvida, que 
a aplicação somente dos métodos tradicionais já estão ultrapassados. Por outro lado, acredito ser altamente inconveniente acabar com a clara divisão dos conteúdos por matérias ou disciplinas. Agora que todos já entendem um pouco de informática e da ordem dos arquivos em pastas, para melhor localização dos mesmos, fica fácil entender como funciona a nossa memória: ela continuamente vai abrindo “pastas” dentro de “pastas” relacionando-as umas com as outras, para que quando seja necessário buscar essa informação, o raciocínio seja rápido. Imaginemos agora abrirmos o nosso “explore” e só encontrarmos umas poucas “pastas”, cognominadas, por exemplo, como “experiências”, “vivências”, “sentimentos”, etc., acho que é de senso comum vislumbrar dificuldades sérias no aprendizado. Acho que é muito importante o professor saber misturar aulas expositivas de “cuspe e giz” com outras de computador, PowerPoint, etc., com apresentação de seminários, com filmes e teatros, com visitas a empresas, porém, como já insisti bastante, que tudo isso não seja sinônimo de “marmelada”, mas de aulas bem preparadas, com profissionalismo e que saibam exigir dos alunos sempre muita dedicação, esforço e compromisso com o seu próprio projeto educacional.

7 - É possível encontrar uma escola pública ideal?

A minha pesquisa recente de mestrado na UFRJ — 1º semestre de 2003 — em 9 escolas públicas municipais do Rio de Janeiro demonstrou que, infelizmente, atualmente não! Que 
a legislação educacional em vigor não permite criar um ambiente escolar favorável e positivo tanto para os professores compromissados com a educação quanto para os alunos que querem aprender, pois o fato de as escolas terem que aceitar todos os tipos de alunos, de muitas terem que “ceder” na aprovação automática, de terem que conviver com todos os problemas intrínsecos e extrínsecos que o tráfico de drogas traz consigo não permite que haja as mínimas condições de motivação para quem quer ensinar e para quem quer aprender. Os professores municipais e estaduais estão sofrendo muito com essas mazelas sociais, estão desmotivados, cansados, desanimados e se percebe uma apatia generalizada por parte de nossos governantes. A questão que sempre me levanto é a seguinte: será incapacidade pedagógica/educativa ou simplesmente descaso? Quero sempre acreditar que é a primeira alternativa…
Porém, se olharmos para algumas pouquíssimas escolas públicas de excelência que têm autonomia para impor algumas regras e limites, se pode perceber que é possível sonhar com uma escola pública ideal… Portanto, é questão de se caminhar a passos mais rápidos para uma verdadeira autonomia, buscando uma legislação que responsabilize mais e melhor os respectivos diretores de escola pública.


Entrevista concedida por João Malheiro ao blog Negócios de Família.


OS PERIGOS DOS EXCESSOS NAS NOVAS TECNOLOGIAS

Entrevista concedida ao BLOG (www.negociosdefamília.com,br)


Entrevista com João Malheiro - Doutor em Educação pela UFRJ

1. Que tipo de problemas de convivência terá um adolescente que foi uma criança viciada em computador?
Os pais hoje, preocupados com a insegurança na cidade e muitas vezes por comodismo – para não terem que dar a atenção devida – preferem ir equipando os quartos dos filhos com video-games, internet, computador, DVD, ar-condicionado, frigo-bar... criando-os em autênticas “bolhas” tecnológicas. Estas “bolhas” depoisse tornam psicológicas e os jovens saem para as escolas, para os cursos de inglês, para os diversos esportes, etc, dentro dessas bolhas, dificultando enormemente a capacidade de olhar para as pessoas, para se relacionar com elas, tornando-as tímidas, egoístas e desinteressadas pelas necessidades dos outros. Uma pessoa educada assim, desde cedo, terá resistências para sair de si e fazer amigos: esta é a causa principal porque os jovens hoje têm 2, 3 amigos de verdade no máximo e um monte de amigos virtuais ou cachorros, gatos, etc: esses não exigem esforço de sair da bolha.

2. Que tipo de problemas de aprendizado o adolescente terá?
O excesso de imagem que nos traz hoje a “cultura da imagem” vem trazendo sérios problemas de aprendizagem que já se está tornando uma autêntica “chaga” educacional, atingindo várias camadas sociais e não somente as classes mais abastadas.
Costumo destacar três graves deficiências educacionais:

1º) déficit de atenção: um adolescente que seja educado a receber muitas informações desde cedo, através de imagens, acabará por se viciar a ficar atenta somente naquilo que lhe é agradável como é a imagem . É o que se chama: ATENÇÃO EXPONTÂNEA. É preciso educar também na atenção voluntária: aquela conseguida através do esforço que nasce do estudo, de leituras, de documentários com perguntas, de questões na sala de aula (questões desafio), etc. Um dos maiores problemas hoje que os professores têm que enfrentar é a indiferença no aprendizado. Têm que se desdobrar para conseguir mantê-los atentos por apenas alguns minutos. Tudo isto muitas vezes tem relação com currículos ultrapassados e metodologias antiquadas, por isso é preciso descobrir quais são as verdadeiras causas da pouca motivação do aluno aprender e do professor ensinar.

2º) desmotivação, falta de iniciativas e de criatividade - o excesso de imagem afeta e enfraquece demais a imaginação, porque quando a imagem já vem pronta a pessoa não precisa fazer esforço e se acostuma com isso.
EX 1: como faltam atualmente idéias na criançada na hora de brincar. Antigamente, com uma meia, com um cabo de madeira, com uma boneca existiam mundos e mundos...
EX 2: antigamente, como só havia rádio, as pessoas tinham que imaginar tudo, ouvindo um jogo de futebol. Porque não havia TV, as tertúlias familiares, nas quais o avô contava estórias, eram atraentes e se passava muito bem em família.
Hoje, o video-game, internet, lan-house, etc “sugam” a criatividade das crianças, atrofiando sua imaginação..

3º) afeta também a memória - quantas mães reclamam hoje que seus filhos têm problemas para assimilar a matéria, dá branco na prova a toda a hora, ou, o que é pior, esquecem os deveres e obrigações escolares.
* as pessoas hoje pensam que ter informação é ter conhecimento: existe uma diferença imensa nesses dois conceitos: informação são dados, fatos, impressões imediatas, etc. Conhecimento exige assimilação, relacionar fatos, memorização ordenada.
* criam a falsa idéia de que já sabe a coisa porque viu na telinha, quando na verdade o assunto fica só na periferia do ver, sem chegar à inteligência:
• isto vicia a pessoa com a memória fraca
• ficam superficiais nas idéias: não sabem se comunicar (falar e escrever)
• se tornam “animalizados” na linguagem, na cultura, na diversão...

3. Como essa mania afeta o relacionamento em casa?
Na medida que os pais fomentam “bolhas” dentro de casa, colocando computadores, videos-games, etc. nos diversos quartos dos filhos, cozinhas, banheiros (já existe!), as pessoas vão deixando de conversar, de dialogar, de ser família...

Nos Estados Unidos, sabe-se que uma criança assiste em media, a 1680 minutos de TV por semana (4 horas/dia), enquanto os pais gastam 38,5 minutos dialogando com os filhos. A informação é do psiquiatra infantil Paramjit Joshi, do Centro de Crianças John Hopkins de Baltimore e foi divulgada em matéria de O Estado de S. Paulo, no dia 8 de julho. Fonte : Tendência & Cultura - SBP.Notícias no.4, ano I - fev/março 99

4. Quando o computador se torna um aliado e quando se torna um vilão?
Para entrar de cheio na questão, gostaria de recordar quais são os motivos que levam a criança e o adolescente a ficar no vídeo, na tv, na internet. Existem 3 blocos de motivos principais :
1º) acalmar os nervos ou combater o desânimo (curto prazo(CHATEADO) ou da vida);
2º) preencher o tempo ou simplesmente descansar
3º) entreter-se de forma seletiva ou como fonte de estudo, pesquisa e informação

Os dois primeiros, quando vão excedendo 2, 3 horas /dia - segundo alguns médicos – se tornam vilões porque a criança vai ficando cedada e perdendo o senso crítico que filtra o que é conveniente do que não é: deixa-se dominar por eles, podendo a partir daí acontecer de tudo.
É importante que os pais percebam a incoerência que existe em se sacrificarem para ir buscar suas filhas numa festa no Recreio dos Bandeirantes (RJ), no sábado à noite às 5 h da manhã, ou ainda, coloquem vários sistemas de segurança na suas casas: alarmes, vigias, etc., e não vigiem quem está entrando dentro de suas casas pela TV ou pela INTERNET. Hoje em dia com as WEB-CAM, é possível que os adolescentes se filmem mutuamente pelados no quarto, por exemplo, e enviem essas imagens por e-mail a quem quiserem. Isto já está virando moda: logo vai se chamar de prostituição digital. Os pais não podem ser mais ingênuos, achando que seus filhos são uns santinhos e que só ficam “baixando”músicas durante a tarde.

Em todas as palestras que dou em colégios aconselho que os pais coloquem FILTROS de pornografia – confirawww.NETFILTER.com.br (não ganho comissão nas vendas!!!) – que se torna muito eficiente combater esses intrusos da família. Muitas escolas, empresas, servidores já estão aplicando esta medida curativa. Não deixaria ter também WEB-CAM disponíveis nos quartos dos filhos.
Com relação ao terceiro bloco de motivos, sem dúvida, quando esses meios de comunicação são usados para enriquecimento pessoal, de forma seletiva e inteligente, só podem ser aliados do bom viver.
É muito importante, portanto, que os pais se questionem todos os dias quais são os reais motivos que estão levando os seus filhos a ficarem horas e horas na TV, internet, computador, etc. Nem sempre são os mesmos...

5. Como os pais podem identificar o problema do vício pelo computador?
Quando além de passarem várias horas por dia em frente a esses aparelhos, perdem a capacidade de aprendizado descritos acima e de relacionamento. Vão perdendo também a sensibilidade para a família, os amigos, outros em geral...

6. Identificado o problema, como devem agir?
Devem ter a fortaleza de colocar limites de uso de horas, de programas e de tirá-los dos próprios quartos colocando-os todos na sala de estar, para que haja vida em família. Devem depois incentivá-los a usarem esses meios para construirem projetos úteis para a família, escola, sociedade: escrever livros, escrever cartas, organizar aniversários da família, cardápios para a mamãe, músicas para escutar de noite, pesquisas sobre futuras viagens, etc.

O PAPEL DAS VIRTUDES ÉTICAS NA EDUCAÇÃO

Entrevista concedida a Mariana Sanches do Gazeta do Povo


Segue aqui trechos de um entrevista publicado na Gazeta do Povo que pode ser um bom auxílio aos pais e educadores.

Fim de ano é tempo de refletir sobre nossas atitudes e melhorar o que não está legal. Nunca é tarde para retomar o aprendizado das virtudes humanas

Responda sinceramente: você se sente triste depois de devorar sozinho uma torta de chocolate? Quando algo dá errado, a única coisa capaz de levantar seu ânimo é uma sessão de compras no shopping? Se as respostas foram afirmativas, é sinal de que você está vivendo os efeitos colaterais de uma sociedade que se distanciou da busca pelas virtudes.


No caminho do bem

As virtudes podem ser entendidas como a prática de hábitos que levam o ser humano para o bom caminho, uma “disposição adquirida para fazer o bem”, segundo o filósofo grego Aristóteles. Também chamadas de virtudes cardeais, elas são a temperança, a fortaleza, a justiça e a prudência. Na explicação do doutor em Educação pela UFRJ, João Malheiro, estes quatro pilares brotam dos motores que determinam as escolhas do homem: afetividade, vontade e inteligência, sendo a primeira a mais forte de todas. “A afetividade tende a determinar todas as escolhas que fazemos, e isso é perigoso, porque fazer apenas o que se gosta sem refletir contraria a condição humana da inteligência, aproximando-nos dos animais”, aponta Malheiro, que também é autor do livro Ética e Educação. Segundo ele, hoje a educação das crianças não está mais sendo orientada para tais valores, especialmente os da temperança e da fortaleza, que formam a base do indivíduo. O resultado é um retardamento da adolescência e pessoas que chegam à fase adulta sem qualquer maturidade emocional para agir com prudência e justiça.
Mas o que fazer para ser uma pessoa virtuosa e desfrutar a vida em sua plenitude?Acompanhe a seguir o que diz cada uma das virtudes cardeais e como elas podem ser aplicadas no dia a dia. Lembre-se que, segundo o filósofo grego, as virtudes se aperfeiçoam com o hábito. Neste caso, o jeito é colocá-las em prática o quanto antes.
Temperança
“Para ser grande, sê inteiro. Nada teu exagera ou exclui.” Este verso de Fernando Pessoa diz muito sobre a virtude da temperança. Espécie de regulador dos prazeres e instintos sensíveis do homem, a temperança é a nossa capacidade de lidar com os limites. Uma pessoa temperada não se atira aos prazeres da vida descontroladamente, como quem detona uma caixa de bombons. Antes, ela pesa as consequências de seus atos e consegue domar sua vontade. Segundo João Malheiro, esta é a primeira virtude a ser desenvolvida no ser humano. Isso porque ela deriva da afetividade, e em uma criança de até sete anos a inteligência e a vontade ainda são incipientes, mas o afeto já é forte. “Nossa natureza está preparada para aprender regras, são elas que garantem nossa convivência em sociedade.” Aos pais crentes que tornarão seus filhos mais felizes se proporcionarem a eles o máximo de prazer, Malheiro cita a fábula da Cinderela, em que a noção de temperança está muito clara, porque a personagem sabe que à meia-noite sua diversão irá acabar e respeita esse limite, voltando antes para casa.

O filósofo e professor Carlos Ramalhete aponta que a temperança situa-se entre a restrição exagerada e o prazer ilimitado. “Perceba que, hoje, vivemos a cultura do exagero, com pessoas obesas de um lado e anoréxicas de outro”, lembra o professor. Portanto, alcançar um equilíbrio em todos os aspectos da vida é o grande desafio das pessoas virtuosas.
Fortaleza
Quantos casais que você conhece continuam juntos por mais de cinco anos? Provavelmente não são muitos e isso pode ser um reflexo da ausência de fortaleza, virtude relacionada à paciência, tolerância e à nossa perseverança diante das dificuldades – de uma prova de vestibular à superação de um problema de saúde.“Estamos vivendo na sociedade do transitório, com pessoas mudando de ideia o tempo todo como quem troca de canal”, analisa Carlos Ramalhete. Um dos efeitos desse comportamento é o aumento dos casos de separação de casais. O filósofo lembra que pode ser aprovada em breve no Brasil a Proposta de Emenda à Constituição 28/2009, conhecida como a Lei do Divórcio Direto, que suprime o prazo de convivência para que um casal possa se divorciar. Uma lei semelhante foi implantada na Espanha em 2005, e já no ano seguinte o Instituto Nacional de Estatística espanhol registrou um aumento de 330% de divórcios entre casais com menos um ano de casamento.

João Malheiro sugere que há um egoísmo mútuo entre amigos, namorados e cônjuges atualmente, e lembra que 60% dos casais de classe média carioca estão separados. “As pessoas não são educadas para amar. A afetividade está orientada em um eu insaciável que só se contenta com bens materiais. Mas as pessoas não se dão conta disso porque seu lado espiritual anda adormecido.”

Justiça
Levando em conta o mapa das virtudes de Aristóteles, a justiça é movida pela nossa vontade, enquanto as duas virtudes anteriores se originam na afetividade. Carlos Ramalhete explica que ela é definida pela forma com que lidamos com o próximo, no sentido de dar a cada pessoa o que ela merece segundo a ideia de igualdade. Esqueça as leis judiciárias, estamos falando aqui de cumprir com a nossa responsabilidade perante o outro, seja ele um amigo, familiar ou colega de trabalho. “Nossa sociedade tende a ver as pessoas como um número, são raros os que pensam no outro e agem com respeito e cordialidade”, afirma o filósofo. Para ele, uma pessoa justa é capaz de reconhecer a dignidade humana em qualquer cidadão, independentemente de seus atos, crenças ou classe social.

João Malheiro conta que a noção de justiça se desenvolve na adolescência, quando o jovem começa a descobrir o outro. “É nessa fase que formamos nossos amigos verdadeiros, porque na infância as amizades são estabelecidas de forma natural.” O problema é quando os amigos ficam restritos às redes sociais, como Orkut e Facebook, porque a justiça se aprimora pela convivência entre grupos e, segundo o professor, o meio virtual oferece uma falsa impressão de amizade. Carlos Ramalhete reconhece que o valor da justiça é conturbado na adolescência porque nessa etapa da vida o jovem está se descobrindo como indivíduo justamente pela negação da alteridade. “O adolescente é injusto ao lidar com o outro, a menos que este outro seja a cópia idêntica dele”, afirma.

Prudência
À primeira vista, a palavra prudência pode fazer você pensar em cautela, mas Carlos Ramalhete explica que essa é uma conotação errada, já que excesso de cautela pode significar covardia e, portanto, algo nada virtuoso. Considerada a mãe de todas as virtudes, a prudência mora na inteligência, na forma correta de agir a partir da nossa razão. João Malheiro lembra que a inteligência é uma combinação da razão teórica e da prática. A primeira é regida pelos conhecimentos disciplinares, que adquirimos na escola, enquanto a segunda trata da nossa apreensão das virtudes morais. “Hoje, é comum as pessoas serem educadas apenas com foco na razão teórica, para passar no vestibular, mas inteligência não é só isso, é saber discernir o verdadeiro bem e escolher o meio correto de atingi-lo”, afirma Malheiro. Para ele, educar crianças sem considerar a razão prática é formar indivíduos incompletos, influenciados pelo mal do prazer ilimitado. Ainda na explicação do professor, pessoas afetivas têm maior facilidade para desenvolver a temperança e a fortaleza, enquanto aquelas que estimularam mais a razão teórica têm grande inclinação para serem prudentes.

Publicado em 27/12/2009 | Mariana Sanchez - arianab@gazetadopovo.com.br



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